Nós ainda estamos aqui. Mas onde?

Estamos de volta!
Passado quase 1 ano desde a última vez que para aqui escrevi, aproveito este último desafogo antes do início do 2º Semestre da faculdade para voltar.
Durante este último ano (chamemos-lhe "ano sabático") não só foi difícil encontrar tempo para escrever, mas ainda mais grave, foi difícil ter períodos de calma, de reflexão, de estudo da atualidade para poder escrever da melhor forma possível, com toda a informação disponível (é o contrário de um ano sabático, na verdade). Foi (e está a ser) um período muito carregado, agenda ocupada e muitas responsabilidades novas assumidas que exigem a minha atenção talvez mais do que gostaria. Este ano, vi-me forçado a deixar algumas coisas que adorava fazer, uma delas escrever. Aproveito então este período que é tão prazeroso na vida académica: o rescaldo da época de exames antes do início formal do 2º semestre. As verdadeiras férias para quem se vê forçado a estudar horas a fio naquilo que seriam (e são, para a restante família) os verdadeiros períodos de férias – se me pusesse agora a tirar ilações sobre este tema, garanto que poucos teriam tempo de ler este artigo até ao fim, talvez para outro dia.
Muito mudou desde a última vez que vos escrevi. A velocidade com que tudo acontece é assustadora. Começam-se guerras, anunciam-se tarifas, ameaçam-se liberdades básicas. Partem flotilhas para Gaza (acho que é sinónimo de Ibiza), Maduro publicita a Nike enquanto é levado pelos fearless marines (será que foi pago?) e o temido monstro Adamastor decide homenagear Camões ao assentar praça em Portugal, com a Tânia Laranjo sempre atenta aos seus movimentos. Morre quem nunca morreu, nasce quem nunca nasceu e, como diz o Miguel Araújo, nós ainda estamos aqui.
Que mundo é este que agora temos? Se o E.T. de Spielberg cá estivesse, mandava o pobre Elliot ir dar uma volta e comandava um air strike global (versão americana do dilúvio de Noé?). Todas estas metáforas e analogias para deixar bem claro (só não digo escuro porque o ICE ainda me vem buscar) que o mundo está mais perigoso do que alguma vez esteve. Mais perigoso do que durante, por exemplo, a segunda guerra mundial? Sim, não tenhamos dúvidas. Sim, porque se tudo continuar a seguir o rumo que tem seguido, estamos prestes a entrar numa série de conflitos (a bola de neve já começou) que prometem terminar num cenário de destruição global digno de filme (talvez o E.T. nem precise do tal air strike, afinal).
O objetivo deste artigo não é afirmar que não há esperança, há. Não é condenar o mundo ao seu fim inevitável e, como um bom português, ceder ao pessimismo e à inação. É, por outro lado, fazer com que os poucos que leem o que escrevo entendam que é preciso que todos tenhamos um papel ativo para que isto mude, agora mais do que nunca.
Vejamos o nosso país ao espelho. Não precisa de ser um espelho muito grande, já fomos o maior império do mundo mas dizem que os mais idosos "minguam". Talvez até o consigamos comprar sem pedir empréstimos a outros países (será que os fundos do PRR chegam?). Bem, voltando ao espelho, gosto de divagar.
Olhemos. Vemos, em grande destaque, André Ventura. "Não querias dizer Seguro?" Não, desengane-se quem acha que foi ele o vencedor. Seguro está em segundo plano, atrás de Ventura, fechado no Palácio de Belém (talvez a escolher os tapetes). Ninguém sabe o que ele está a fazer ou o que pensa. Diz que está a fazer um pacto para a saúde mas eu acho que está em facetime com o José Luís Carneiro a planear como passar a Assembleia da República para o Largo do Rato (ou vice-versa). Se olharmos bem para o canto inferior do espelho (já nem sei se diga direito ou esquerdo) vemos Marques Mendes, em bicos de pés, a ver se chega aos 12% onde está o Almirante salvador da pátria. E foi assim que ficamos depois das eleições presidenciais. Nem vou falar sobre Cotrim porque sinto que quem quiser entender porque não passou à segunda volta basta ir estudar a última semana de campanha. Uma campanha como o país viu poucas (diria digna de Sá Carneiro mas não quero tocar na ferida), com um candidato que representa competência, esperança e acima de tudo, futuro. Campanha essa que cai perante o tamanho do ego do Sr. Primeiro-Ministro e perante um ato oportunista de difamação. Não vale a pena falar mais sobre isto, haveria muito a escrever.
Ainda ninguém se perguntou o que faz André Ventura, em grande plano? Carrega garrafas de água algures em Leiria, com uma expressão semelhante à de Jesus quando carrega a cruz no icónico "Paixão de Cristo". Enquanto isto, os seus camaradas partidários traçam o plano para o levar a São Bento, o último objetivo destas eleições presidenciais e o único motivo pelo qual ninguém saiu a ganhar disto.
Este espelho português, como qualquer boa obra de arte, está cheio de pormenores, detalhes e interpretações, muito a acontecer em simultâneo (e aquilo que realmente devia, sem sinal de acontecer). Não me vou elaborar muito mais porque o artigo já vai ficar extenso e quero ver como tudo se desenrola. A ver se no próximo artigo consigo a muito custo espremer algum elogio à situação nacional.
Olhemos agora para fora. Como se estivéssemos naqueles enormes aquários do oceanário, a olhar repetidamente em volta para ver se não escapa peixe graúdo (o miúdo às vezes é mais importante). Vemos logo o peixe (mesmo) graúdo, o bully do aquário, o master of puppets – Donald J. Trump. Aquele que diz o que lhe apetece, sem ter noção das consequências (talvez porque, para ele, não existam) nem da responsabilidade do cargo que ocupa. Foi o homem que trouxe liberdade (a longo prazo?) aos venezuelanos e que ameaçou dar a mesma liberdade aos greenlanders. Acho que liberdade deve mesmo ser a nova palavra favorita dele, será que a descobriu recentemente no Wordle?
Do outro lado do Atlântico, temos a grande e poderosa União Europeia.
Acreditaram mesmo nessa frase? Poderosa só se for a dependência em relação aos EUA e grande será certamente a lista infindável de regulações e burocracias ridículas que impedem o crescimento e a autonomia. A União Europeia, para além de depender completamente dos EUA em (quase) todos os setores de atividade, consegue eliminar qualquer vislumbre de autonomia – incrível, não é? Consegue expulsar o talento, a inovação e o empreendedorismo – as ideias (e pessoas) brilhantes – para os EUA, onde aí podem começar os seus negócios e, bem-sucedidos, flip the EU off, e com razão. Tenho vergonha a falar disto porque Portugal é dos piores neste sentido, comparando com os restantes da União Europeia, mas, novamente, tema para outro dia.
Vale a pena falar das guerras, antes de acabar? Talvez aquela que acontece na Ucrância, de que as televisões já se esqueceram, ou aquela em Gaza que, não bastando as balas e bombas, ainda teve de levar com uma Mariana Mortágua de ressaca depois de Ibiza. E todas aquelas de que a comunicação social nunca sequer se lembrou? Há atualmente cerca de 130 conflitos ativos graves pelo mundo (fora muitos mais), mas acho que a televisão portuguesa faz muito bem em dar mais tempo de antena ao candidato Manuel João Vieira.
Meus caros, se chegaram até aqui significa que para já não se fartaram (ainda vão a tempo de ir ver TikTok se quiserem) e, mais importante, significa que estão, como eu, realmente preocupados com o rumo de tudo. Com o rumo do nosso país, do nosso continente, e do nosso planeta. Poderia escrever um livro com vários volumes se quisesse elaborar todos os temas ao pormenor, mas esse não é o propósito deste artigo nem deste blogue. Espero que tenham gostado deste artigo que marca o regresso e espero sinceramente conseguir escrever-vos mais e com mais frequência doravante. Se ainda há esperança em mudar alguma coisa, a iniciativa tem de partir de todos nós, não só de alguns.
Where are we now? - clamava Bowie. Nós ainda estamos aqui. Seja lá onde isso for.
Saudações politicamente incorretas!
Gonçalo M. Torrão